Querida irmã, antes de mais nada, saudades de todos. Há tempo grande que queria te escrever, pois sim, a saudade é peso que não faz cessar no peito enquanto de verdade não acolhe-la em meus abraços. Por certo, diga aos meus amados sobrinhos que não, não sou um tio desalmado, e que, quando menos eles esperarem, aparecerei com um tanto de brinquedos. Aqui comigo está tudo muito bem. Como sabe, acabo de me casar. Aliás, minha irmã, hoje, posso dizer -depois de tanto nessa vida sofrer -, que a felicidade é soberana. De peito aberto tenho que admitir: sou um homem feliz!. A festa foi linda. E a noiva? Barriguda, toda de branco. Ah, era a coisa mais bela desse mundo. Sempre achei lindo, noiva grávida. Até gaguejei na hora do sim. Tamanha a emoção. Acredita? Mais detalhes: fazia um dia claro desses de arder de tanto calor, tipicamente tropical. Porém, no finalzinho caiu uma chuva fina que aliviou o mormaço. Pensei em você nesse frio todo desse teu país. Ainda dorme de meias? Lembra daquela vez que escondi suas meias e você não conseguia dormir de tanto frio nos pés? Ficamos conversando por toda madrugada. Tempos bons aqueles. Sei, mas que sei da sua dificuldade de vir à cerimônia. Mas não se encabule, entendo suas obrigações e indisponibilidade. Mesmo assim, como fizeste falta, querida irmã! Nenhum dos convidados, nenhum! tinha sua sobriedade e simpatia, seu jeito simples de agir com a maior elegância do mundo... Sabe, lembrei do papai, cheguei vê-lo entrando no meio do salão e me abraçando: “Parabéns, meu filho”. Eu o vi direitinho: seu bigode grande, sua calvície, seu sorriso largo. Como se ele não tivesse morrido há 15 anos. Mas era só mais uma ilusão da minha cabeça. O que me faz pensar se a felicidade que sinto não é mais uma dessas ilusões que tenho. Mais uma. Não importa, num momento desses é preciso aproveitar cada instante como se fosse o último. Sempre fui assim, você bem sabe. Vivo intensamente. Engraçado, nunca pensei que fosse viver intensamente a ponto de me casar. Rs... Vira e mexe há um cretino para me alertar com conselhos recheados de frustração: “cuidado, o casamento é complicado, não é tudo isso”, “no começo é tudo maravilha, depois...”. São todos uns mal-amados, certeza. O sujeito na teve a capacidade de, no mínimo, fazer a escolha certa, e se fez, não soube levar seu projeto adiante. Espero ter capacidade, minha irmã. No fundo tenho a convicção de que não me precipitei. Quem imaginaria? De todos nossos parentes e conhecidos, quem imaginaria que aquele rapaz “perturbado” – como eles mesmos me definiam – que foi internado cinco, seis, sete vezes, não sei mais quantas, estaria casado e BEM casado. Se pudesse escolher uma trilha sonora, seria aquela música dos Mutantes, lembra? aquela que cantávamos juntos, como é mesmo?... “eu vou correndo buscar a glória, buscar a glória... GLÓRIA GLÓRIA” Lembra quando aquele médico disse que eu não tinha solução. Classificaram-me de doente mental, ou melhor, “psicopata com tendência a matar”. Tendência a matar SIM, mas, psicopata NÃO. Quer saber, esses médicos não sabem nada. E eu estou bem, como nunca dantes. Essa que é a verdade. Nossa noite de núpcias já terminou e foi inesquecível. Beijos calientes, música romântica, juras de amor e rosas, muitas rosas vermelhas... lotei o quarto delas! Agora, enquanto escrevo esta, minha esposa dorme o sono dos justos aqui do meu lado. Eu a amava tanto. Seus olhinhos claros, seus lábios agora com falta de batom, sua pele... seu cheiro... Ainda a amo. Ela também me amava. Sua morte foi rápida e limpa, sem sangue. No entanto, não posso afirmar que fora indolor. Ah, ela está tão mais linda assim. ANGELICAL, diria. Ah,... coisas de homem apaixonado sem limites. Antes de terminar quero lhe fazer uma confidência: acabo de pedir uma garrafa de champanhe do bom. Vamos comemorar tanta felicidade. Do seu irmão que te ama. Carl 12/09/03 * Abra a porta, é a polícia..., disse a voz atrás da porta. O que querem? ele perguntou. Abra já!... Não, não queremos ser importunados, estamos em lua-de-mel. Vamos arrombar... Canalhas!, não entendem um homem apaixonado?... É a polícia, vamos entrar agora... |