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A arte da política tratada como menor PDF Imprimir E-mail

Coluna Publicada hj no Jornal A tribuna Ribeirão

Carlos Biasoli, escritor

http://twitter.com/carlosbiasoli 

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos (...)” Bertolt Brecht

Um político da região uma vez disse que o mais difícil no seu governo era o entendimento qual seus subordinados faziam das suas ordens. Usava como exemplo a sentença qual um Rei havia dado a um homem julgado à pena de morte e que reivindicava o perdão do chefe supremo da nação. O Monarca julgou procedente que não houvesse mais ordens de morte em seu reinado e assim deferiu: “Matar não podemos, perdoar!”.  E passou para os escalões abaixo para que essa ordem chegasse ao executor.

Pois bem, foi assim que a ordem chegou: “Matar, não podemos perdoar!”.

Sendo assim, a frase do Presidente da República proferida dias atrás numa entrevista – "No Brasil, Jesus teria que se aliar a Judas" – é emblemática e por si só trata com realismo os meandros da política nacional. O jornal fez o certo, fez sua manchete em letras garrafais destacando a frase, contudo, a discussão na sociedade descambou para longe do âmago da questão.

Para isso não faltou teólogos escalados para fazer o contraditório, revertendo o significado da frase e a transformando num engodo pseudo preconceituoso contra os cristãos. Uma bobagem.

A frase pode ter muitas interpretações e não seria escassos intelectuais que citariam de Gilberto Freire a Maquiavel para explicá-la, eu como sou raso, não pretendo ser tão profundo porque me faltam armas para tal feita.

No entanto, a verdade é que tratamos a política como uma arte menor e nos portamos como se tudo que viesse da mesma fosse algo putrefato. Desta feita, mais nos despolitizamos do que politizamos. Isso é um vício.

O termo Política é oriundo do grego antigo πολιτεία (politeía), que mais nada era do que todos os procedimentos relativos à pólis, ou Estado. Leia-se nesse caso, os interesses da sociedade, comunidade, coletivo e etc.

Aristóteles disse que “O homem é um animal político”. E assim somos por natureza, se assim não fosse, estaríamos ainda nas cavernas sem eira nem beira.

A realidade de qualquer mandatário do executivo brasileiro, de prefeitos a Presidentes da República, é que todos dependem da amarração política que caí na necessidade numérica da maioria simples, quando não a maioria de 2/3.

E daí há quem defenda uma coalizão “puro sangue” ou “pura” como a água benta. Mas como disse o Spinoza, “não gostamos de coisas boas, mas sim consideramos boas as coisas que gostamos”.

E queira ou não, seja contra ou a favor das falhas que nos acomete o regime democrático, este ainda é o “menos pior” de todos os regimes, ao menos não inventaram outro.

Se deixarmos a desonestidade intelectual de lado e formos francos, digo que, quem defende que tudo seja feito na canetada ou é leigo, ou é hipócrita ou flerta com o ditatorialismo. Chegamos ao cúmulo de um Senador da República demagogicamente defender o fechamento do Senado (sic!).

O Presidente da República ou qualquer um que esteja sentado numa cadeira do Executivo tem que compor sua maioria no Legislativo, e, é exercício de má-fé não levar isso como premissa de qualquer composição que viabilize o ato de governar, ou seja, “a escolha entre possíveis”. Ou se faz isso, ou o nada.

O nosso problema, diferente do que muitos acham, não está no sistema em si, mas no vício do processo. Pois quem elege os políticos errados somos nós e estes são o reflexo da nossa sociedade. É preciso que a sociedade melhore como um todo, inclusive no ato de escolher e se fazer representar. E dentro do Congresso há o Lobby dos engenheiros, dos artistas, dos advogados, dos ruralistas, dos evangélicos, dos católicos e/ou qualquer coisa que lute por mais representatividade. E a representação de cada grupo é medida pelo tamanho de sua bancada ou pelo poder político/econômico desta.

E é legítimo que isso aconteça, dentro da Lei, claro, que não se confunda o público com o pessoal.

Vou balbuciar aquilo que é repetido a esmo, a reforma política é a mais necessária de todas as reformas, pois tudo provém desta. Tudo emana da política. É necessária a cláusula de barreira, evitando as legendas de aluguel. Também como o financiamento público de campanha e a limitação dos gastos do executivo com propaganda, muitas vezes manchando a isenção da convivência entre mídia e classe política. Entre outras coisas.

Fora isso, devemos evitar chefes de rebanho em programas e jornais gritando aos cantos que ninguém presta, que tudo está errado e confundindo a opinião pública do ato político em si. Tergiversando o cerne da questão para se autovangloriar com o monopólio da retidão e pregando o desinteresse.    

A mudança envolve a sociedade como um todo e a forma como esta trata a questão e se porta frente aos seus representantes. Sejamos fiscalizadores ou “interessados”, todavia, que isso seja feito com o entendimento que cabe dentro da arte política. Vamos ensiná-la de vez execra-la. Só assim cresceremos, longe de demagogias temporais, condizentes com nossa natureza e certos daquilo que nos cabe por direito ou a “parte que nos cabe nesse latifúndio”.  


   

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