Muitos, entre nós, reclamam da paixão dos homens pelo futebol. Inclua-se entre os reclamantes alguns intelectuais e a maioria das mulheres, que ultimamente lançaram até livros de auto-ajuda sobre o tema. Algo do tipo: “De quem ele mais gosta, de você ou do Flamengo?”, ou, “Saiba o que fazer enquanto ele assiste o futebol”.
Saindo em defesa dos homens “comuns”, farei um relato, caro leitor, que embora faça parte do passado, é inesquecível.
Certa feita, Prof. Couto Lima, homem de muita estirpe e estudioso das letras, foi chamado para discursar na abertura do campeonato interno de futebol entre as classes do ginásio.
Diziam a esmo que o discurso do grande mestre na abertura do campeonato daria o respaldo necessário à competição, já que dona Benta, diretora, era contra. Transcrevo adiante suas emocionadas palavras de intelectual das letras:
“(..) Quisera ter a sabedoria de Salomão/
o espírito desvendador de Shakespeare/
a singularidade de Machado de Assis/
a paixão de Álvares de Azevedo/
a dimensão metafísica da literatura de Guimarães Rosa/
a simplicidade mágica de Carlos Drummond de Andrade/
a genialidade do Nélson Rodrigues,
mas, juro-lhes, sem hesitar num só instante, trocaria todas essas qualidades pelo talento do rei Pelé”.
Findo o breve discurso, o mais interessante foi a mudança de comportamento do Prof. Costa Lima. Torcendo o dorso, ele agarrava por trás das costas, o peito dos pés, ora do direito ora do esquerdo como se assim estivesse se alongando e , mais impressionante, já falava como boleiro:
“ah, com certeza, faremos o possível, com humildade e determinação. Respeitando sempre a equipe adversária... Com certeza, o grupo está unido e vamos em busca da vitória e o nosso objetivo maior que são os três pontos”.